Será que devemos escutar música durante a cerimônia psicodélica?
Entendo quem prefere uma jornada no silêncio, e, na verdade, eu acho que sou assim também. No entanto, em minhas jornadas, aprendi que colocar o som certo no momento certo pode ter um efeito riquíssimo na sessão.
Outra coisa que percebi durante minhas experiências foi o poder da música de acalmar tempestades em copo d’água, trazendo o participante de volta a um estado de harmonia.
Você sabia? Na África tem um povo ancestral, os San, que até hoje faz rituais de conexão divina, nos quais o xamã entra em estados alterados de consciência fortíssimos sem o uso de nenhuma substância psicodélica, só música e dança.
Em um contexto mais moderno, vemos clínicas de tratamento com psilocibina que juram de pés juntos que a playlist é um componente fundamental no sucesso de suas terapias, conduzindo experiências completas com música do início ao fim.
Mas será que ajuda mesmo?
A ciência da música na cerimônia psicodélica
Para entender melhor como a música pode mudar a trip, vamos voltar no tempo até 2015, quando Kaelen et al. (2015) convidaram 10 pessoas a tomar uma dose de LSD e uma de placebo em dois dias diferentes. Em cada um dos dias, os participantes escutaram música instrumental.
Com o LSD e a música em combinação, os participantes disseram que, comparado com o placebo, o LSD causava sensações bem mais fortes, como sentimentos de deslumbramento, transcendência, poder e carinho.
Para expandir essa pesquisa, um ano depois essa galera analisou dados de neuroimagem de outro estudo com LSD, mas agora olhando o que acontece no cérebro quando escutamos música durante a trip. Eles viram que, quando escutamos música após tomar LSD, a parte do cérebro responsável pela memória se comunica bem mais com o córtex visual.
E aqueles cérebros que mostraram uma maior conexão entre essa área da memória e o córtex visual eram dos participantes que tinham visuais de olhos fechados mais intensos.
E não parou por aí; de novo em 2018, os mesmos pesquisadores chamaram 19 pessoas com depressão resistente ao tratamento e deram psilocibina (do cogumelo mágico) para elas e colocaram música para tocar.
Quase todos disseram que a música fez a experiência mais intensa, mas, para alguns participantes, a música, na verdade, aumentou sensações de medo e tristeza.
O resultado mais importante aqui é que aqueles que melhoraram mais da depressão depois da experiência foram justamente aqueles que se conectaram mais com a música durante a trip.
Em 2021, Strickland et al. testaram playlists de estilos diferentes com psilocibina e viram que a música clássica normalmente usada em clínicas não parece ser melhor que outros estilos. Então parece que o estilo da playlist importa menos do que as pessoas pensam.
Não sei se você notou, mas nenhum desses estudos comparou uma sessão inteira com música com uma trip toda no silêncio. Então temos indicações de que a música influencia a experiência, mas as pesquisas não demonstram que a experiência com música é melhor que sem.
Bom, massa, a música influencia a experiência, mas como fazer a minha playlist?
O que dizem os guias e clínicas?
Quando Barrett et al. (2017) perguntaram a guias profissionais com experiência, eles disseram que, no pico, é bom escolher músicas com um ritmo fácil de prever, sem muitas mudanças de “mood”.
A recomendação é utilizar músicas com pouca variação de instrumentos e sem muitas surpresas. Músicas com muitas mudanças podem acabar deixando a pessoa alerta ou desconfortável.
Se a música tiver vocais, a preferência é por línguas que o participante não entende, ou cantos que não destacam palavras específicas, para não puxar a atenção do participante para palavras soltas, o que pode ter efeitos inesperados.
Facilitadores profissionais estudam a duração da cerimônia e suas etapas e preparam a playlist para seguir o curso da experiência. As playlists utilizadas em clínicas tendem a ser mais calminhas no início, quando os efeitos começam, e vão ganhando energia lentamente até chegar ao pico da potência dos efeitos. Quando passa o pico e os efeitos vão diminuindo, a música também volta gradualmente a ser mais calma.
Agora, vou colocar a ciência um pouco de lado para falar da minha experiência pessoal escolhendo a música para minhas cerimônias. No final, espero que você tenha o que precisa para fazer o design de sua própria experiência musical.
Como fazer uma playlist para a cerimônia psicodélica
Primeiro, considere a duração da sua cerimônia e os estágios. Os estágios são:
- Antes da dose
- Esperando os efeitos começarem
- Aumento dos efeitos
- Pico
- Diminuição dos efeitos
- Afterglow
Claro que você não precisa ter uma playlist para todos os estágios, mas é bom ter uma playlist variada o suficiente e longa o suficiente para quando você quiser colocar a música.
Cada substância tem a sua duração, então leve isso em consideração. Por exemplo, para uma experiência com o cogumelo mágico, eu reservaria umas 6 horas, enquanto com o LSD eu reservaria cerca de 8 a 12 horas.
Para mim, o momento em que a música ajuda mais é no início e no final. O momento logo antes dos efeitos começarem pode ser estressante, e muitos iniciantes ficam com frio na barriga com a expectativa dos efeitos. Esse também é o momento em que algumas pessoas sentem enjoo, e a música pode ser uma ferramenta muito eficiente para acalmar os nervos.
Antes de começar
Antes dos efeitos começarem, eu recomendaria uma música que você conhece bem e gosta de escutar no dia a dia. Isso pode te auxiliar a se acalmar. No entanto, uma música que você já conhece também pode trazer uma bagagem de emoções e memórias que às vezes tem uma grande influência sobre você.
Considere também que o som terá influência na atmosfera que você quer criar para o resto da sua experiência. É normal que psiconautas mais experientes deem preferência a músicas que os ajudem a entrar no estado alterado de consciência.
Quando os efeitos começam
Quando os efeitos começam, nós precisamos de um tempinho para nos acostumar com as mudanças nos sentidos e percepção, o que também pode causar um enjoo e até uma sensação de tontura. A mudança de uma vida cotidiana moderna entra em contraste com uma energia mais orgânica e natural, e essa transição para uma vibração mais calma pode causar turbulências também.
Nesse caso, eu recomendo uma música instrumental bem longa que leve a pessoa a uma jornada, mas sem muitos vocais. Aqui é bom estar deitado com os olhos fechados, só prestando atenção na imaginação. Após uns 30 minutos, mais ou menos, eu costumo tirar a música e passar um tempo sem música.
Às vezes fico sem música até o final do pico, que é quando os efeitos estão mais fortes, mas, quando coloco uma playlist, eu deixo essa playlist até que os efeitos comecem a desaparecer.
Depois do pico
Quando sinto que os efeitos já estão passando e estou chegando ao final da jornada, eu gosto de colocar novamente uma playlist familiar bem do cotidiano.
Esse momento depois da trip é quando conseguimos nos expressar com mais controle, e as ideias se conectam bem, então é um bom momento para conversas. Normalmente, coloco uma música baixinha, boa de conversar. Foco em uma música para ficar no background, que dê espaço aos insights, à imaginação e que acompanhe o retorno da consciência ordinária.
Como escolher a música.
Eu, particularmente, gosto de músicas eletrônicas, instrumentais e também músicas em línguas que eu não entendo (como francês, por exemplo), que sejam bem fáceis e gostosas de escutar. Outras pessoas gostam de músicas mais pesadas ou músicas tribais, mas isso depende muito também dos outros participantes e da atmosfera geral do ambiente.
Falando em músicas tribais, não se sinta mal se a sua playlist não for composta por cantos indígenas, tambores e sons da floresta. Cada um tem a liberdade de experimentar playlists diferentes, e o sagrado emerge de diversas fontes, então escute o que você sentir que vai se encaixar com a experiência.
Quanto mais pesquiso sobre o assunto, mais vejo que de ciência tem pouco; fazer a sua playlist é mais uma arte que ciência.
O melhor que você pode fazer aqui é tirar um momento nos dias antes da experiência para tentar visualizar o ambiente e a atmosfera entre os participantes, para escolher músicas que vão se encaixar com todos os gostos.
Criar a sua playlist para a cerimônia é para ser algo divertido, que vai te ajudar a parar nos dias antes da experiência e contemplar a sua futura cerimônia. Se nesses momentos você mentalizar as suas intenções e objetivos para a experiência, talvez isso te ajude a escolher as músicas que você precisa para chegar lá.
Segurança e controle da música
Os participantes precisam ter controle suficiente para conseguir mudar ou parar a música na hora em que eles decidirem que ela não está ajudando.
É bom ter um tripsitter para te ajudar a administrar a música durante a cerimônia. Durante a experiência de pico, pode ser difícil mudar o som.
A música pode servir como uma rede de segurança que ajuda os participantes a se centrar, mas também pode criar experiências mais intensas. Isso pode ser bom ou ruim.
Para algumas pessoas, a música errada pode fazer com que elas resistam mais à experiência, o que pode causar uma bad trip. Mas, utilizada corretamente, a música pode ser uma aliada potente, sendo usada hoje em dia em clínicas de psilocibina como auxílio na terapia psicodélica.
Trip com música ou sem?
Olha, a música com certeza pode ter um papel importante na forma que a experiência vai tomar.
O som pode intensificar as emoções em ambas as direções, incluindo medo e tristeza em algumas pessoas, então é importante que todos os participantes possam pausar ou mudar a música quando for necessário.
Em combinação com LSD, a playlist pode trazer memórias e intensificar visuais de olhos fechados.
A ciência ainda não respondeu se ter uma cerimônia com música é melhor que sem música, mas uma pesquisa indica que quem se conecta mais com a música durante a jornada tende a mostrar maior melhora na depressão.
Agora, se por alguma razão você não tiver acesso a um sistema de som ou tiver esquecido de criar uma playlist, não se preocupe: mesmo sem uma caixa de som, a natureza tem a sua própria música, e às vezes tudo o que precisamos está ao nosso redor.
Referências
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Kaelen, M. et al. (2015). LSD enhances the emotional response to music. Psychopharmacology.`
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Kaelen, M. et al. (2016). LSD modulates music-induced imagery via changes in parahippocampal connectivity. European Neuropsychopharmacology.`
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Kaelen, M. et al. (2018). The hidden therapist: evidence for a central role of music in psychedelic therapy. Psychopharmacology.`
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Set and Setting: A Randomized Study of Different Musical Genres in Supporting Psychedelic Therapy, in ACS Pharmacology & Translational Science, 4(2), 472–478, doi:10.1021/acsptsci.0c00187
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Barrett, F. S., Robbins, H., Smooke, D., Brown, J. L., & Griffiths, R. R. (2017). Qualitative and quantitative features of music reported to support peak mystical experiences during psychedelic therapy sessions. Frontiers in Psychology, 8, 1238. doi:10.3389/fpsyg.2017.01238
